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quarta-feira, 29 de julho de 2015

A Fortaleza

Um dia Deus construiu uma fortaleza
E dentro do homem a colocou
E chamaras esta fortaleza coração 
Assim Deus determinou

Tenha o homem em suas mãos 
A chave desta fortaleza 
Para que cuide do que entra e do que sai
E não venha ferir sua natureza

Assim Deus o deu a chave
Mas ele não viajou
Deixou entrar quem não devia
E grande dor suportou

Quebrando as paredes 
Desta fortaleza tão profunda
Feito um furacão
Abalou suas estruturas

Sentiu o prejuízo
Do vento forte que passou
Com o vento foi o tempo
E o tempo a restaurou

Pensou ele que aprendeu
A vigiar sua fortaleza
Reforçou as fechaduras
Até encontrar sua princesa

Muitos quiseram entrar 
Mas na porta foram barrados
Pois ele já havia aprendido
O que é certo e o que é errado

E viu-se tão forte 
A suportar seus sentimentos
E nem percebeu 
O que estava acontecendo

Enquanto olhava o horizonte
Em busca de um grande amor
Sem ele perceber 
Na fortaleza alguém entrou

E quando ele despertou 
Ela já estava lá dentro
Arrumando os seus sonhos
E dormindo nos seus sentimentos

Varreu o chão da tristeza 
Jogou asa magoas no lixo
E atrás da saudade 
Encontrou um amor escondido

Ele olhou para a porta 
Nenhum sinal de arrombamento
E perguntou para si mesmo 
Como ela foi parar ai dentro

Eis que a resposta lhe surgiu
Em um súbito momento
A porta é trancada para quem vem de fora
E não para quem nasce lá dentro
Ednilson Emmanoel Cintra

sexta-feira, 24 de abril de 2015

 Prece


Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo. 

Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome. 

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai. 

[...] 

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar. 

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te. 

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.
Fernando Pessoa PESSOA, F. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Lisboa: Ática.